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06/03/2015
Brasil perdeu a capacidade de pensar estratégicamente o interesse nacional

HOLTZ, Abel. “Brasil perdeu a capacidade de pensar estratégicamente o interesse

nacional”. Agência CanalEnergia. Rio de Janeiro, 04 de março de 2015.

Gostaríamos de interpretar o fato da comitiva presidencial do Brasil ter comparecido

à posse do presidente Evo Morales como um marco da mudança de percepção e

importância que nossos vizinhos representam para o bloco que podemos capitanear.

Em muitos dos países vizinhos ainda permanecem rancores e idiossincrasias com

relação a posturas do passado exercidas pelo Brasil de forma personalizada como

foi a tríplice aliança contra o Paraguai, ação instigada à época pelos ingleses que se

opunham ao desenvolvimento daquele País, e que redundou numa guerra sangrenta

cujo maior beneficio para nosso País foi à criação das favelas no Rio de Janeiro. Até

hoje, há uma reivindicação sem resposta da devolução de um canhão trazido pelas

tropas ao retornar ao nosso território.

Outro episódio envolvendo uma postura equivocada reside na compra de terras

ocupadas em território de outro vizinho, a Bolívia, cuja história registra que na troca o

nosso vizinho receberia o direito de uso de uma ferrovia que nunca foi construída. O

nosso vizinho por sua vez menciona que o território ocupado foi trocado por uma

meia dúzia de cavalos.

Saindo deste imaginário folclórico, temos o caso recente de acordo frustrado para

construção de algumas hidroelétricas na selva amazônica em outro vizinho, o Peru,

cujo processo por falta de uma ampla negociação quedou descartado pela

Assembleia Legislativa daquele País depois de termos despendidos em estudos, um

considerável montante de recursos e estabelecido expectativas que foram frustradas.

A politicagem hoje praticada de identificação com ideais ultrapassados não está

trazendo qualquer benefício ao Brasil. Assumimos que devemos conhecer melhor os

pontos de interesse comum entre nosso Brasil e seus vizinhos e sair do discurso de

formação de blocos ou o que quer que seja. Vamos ser pragmáticos.

A questão de fundo, dentre outras deficiências, foi que perdemos a capacidade de

pensar estrategicamente o “interesse nacional”. E isso se reflete, entre outros

aspectos, na incapacidade de serem elaboradas (e perseguidas, com consistência),

diretrizes e políticas, inclusive externas, que se apoiem ou sejam apoiadas, por

políticas internas que objetivem soluções de longo prazo. Energia é geopolítica e

exige soluções negociadas e de longo prazo, sempre.

Se não houver uma mudança radical na forma pela qual são conduzidas as políticas

públicas, significando compromissos de médio e longo prazo, que independam do

governo de plantão e seus interesses clientelísticos de curto prazo (“para ganhar

eleição”), vamos continuar administrando crises sucessivas.

Com o acirramento das restrições ambientais para aproveitamento de nosso

potencial hidroelétrico cuja situação de desequilíbrio atual entre oferta e demanda se

colocou de forma muito clara, devemos considerar muitos dos aproveitamentos

hidroelétricos existentes e disponíveis em nosso continente sem as mesmas

restrições.

Para tanto devemos mudar a postura do nosso país com relação aos nossos

vizinhos que na maioria das vezes desconhecem os objetivos de médios e longos

prazos que o Brasil tem para com eles, por não termos uma postura clara quanto aos

interesses econômicos comuns.

É chegada a hora de estabelecer no governo o mesmo pragmatismo que fez com

que Itaipu exista. Sem este empreendimento a “racionalização” da energia elétrica já

nos teria atingido.

Abel Holtz é consultor da área de energia

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