EDITORIAL. “A Eletrobrás, outra vítima”. O Estado de São Paulo. São Paulo, 06 de
abril de 2015.
Se fossem governos com inclinação neoliberal, seria possível suspeitar de um plano
perverso para desmoralizar e arrasar as maiores estatais do País, a Petrobrás e a
Eletrobrás. A primeira, aparelhada e saqueada por muitos anos, chega ao fim de
março de 2015 sem ter fechado o balanço do terceiro trimestre de 2014. A outra
publicou na semana passada o balanço do ano, relatando prejuízo pelo terceiro
exercício consecutivo. Ninguém jamais chamou de neoliberal, ou mesmo de
simpatizante, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nem sua sucessora, Dilma
Rousseff, agora no começo do segundo mandato. Não se suspeita, portanto, de uma
política orientada por um plano de redução das atribuições e da intervenção do
Estado na economia, como aquela conduzida pela primeira-ministra britânica
Margaret Thatcher.
A explicação deve estar em outros fatores, alguns políticos, como a confusão entre
partido e Estado, outros mais prosaicos, como a incompetência administrativa
exibida nos últimos quatro anos com requintes de virtuosismo. Essa incompetência é
visível, por exemplo, nas perdas impostas à Petrobrás e às empresas do setor
elétrico pelo controle de preços, numa tentativa tosca de represar a inflação.
Empresas do setor elétrico - e este é igualmente o caso da Petrobrás - foram
prejudicadas também pela decisão imprudente de antecipar a renovação das
concessões. Nem todas aceitaram, mas um grupo controlado pela União teria de se
sujeitar a um capricho do governo.
A Eletrobrás fechou o balanço de 2014 com prejuízo de R$ 3,03 bilhões. O Ebtida
(lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) também ficou negativo
em R$ 179 milhões. Mas a companhia apontou uma evolução positiva: o prejuízo foi
51% menor que o do ano anterior, de R$ 6,29 bilhões. As perdas, segundo o
relatório, foram causadas principalmente pelo custo da energia comprada para
revenda, pela provisão para contingências judiciais e pela baixa de crédito fiscal. O
aumento do custo da energia obviamente só resultou em prejuízo porque foi
impossível o repasse aos compradores finais. As tarifas voltaram a subir no ano
passado, mas em ritmo insuficiente para compensar a variação de custos.
Ao apresentar o balanço de 2013, em março do ano passado, a direção da empresa
chamou a atenção para a melhora do resultado: o prejuízo havia sido 8,6% menor
que o de 2012. Para o ano seguinte, a promessa era retornar ao azul. "Todos os
nossos estudos", disse na ocasião o presidente da companhia, José da Costa
Carvalho Neto, "indicam que em 2014 a Eletrobrás deve ter lucro." Os fatos
desmentiram essas projeções.
Em relação às tarifas, o governo cometeu pelo menos quatro erros. O primeiro foi
tentar maquiar as pressões inflacionárias, sem levar em conta a necessidade de uma
correção, quase sempre muito custosa. O segundo erro foi enviar um sinal errado
aos consumidores. A redução dos preços estimulou o consumo numa fase de
aumento de custos. O terceiro foi prejudicar o fluxo de caixa e a lucratividade das
empresas, dificultando a realização de investimentos e a expansão da capacidade
instalada. O quarto foi menosprezar o efeito fiscal dessa política: o Tesouro seria
forçado a socorrer várias empresas e a endividar-se para isso.
Raramente um governo, mesmo de reconhecida incompetência, incorre em tantos
equívocos, criando problemas para as estatais, para o setor privado (prejudicado
pela insuficiência de investimentos) e para si mesmo, por causa das consequências
fiscais e do impacto da correção dos preços.
Esses erros combinam com outros equívocos acumulados nos últimos anos e
refletidos na estagnação econômica. O segmento de produção e de distribuição de
eletricidade, gás e água recuou 2,6% no ano passado, depois de haver avançado
apenas 0,4% em 2013.
A primeira-ministra Margaret Thatcher desmontou as estatais britânicas com um
custo muito menor e com resultados positivos para a economia. Mas ela tinha um
plano, sabia administrar e seu partido tinha ambições modestas - comandar a política
do país, sem se confundir com o Estado.
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