Discussões sobre como reanimar a economia ganham corpo. Governo monta uma espécie de roteiro de como as coisas podem acontecer, mas as informações são poucas
Roberto Padovani
Publicado hoje (06:00)
Os temas que estiveram no centro do debate nos últimos meses começam a mudar. A discussão sobre reorientação de política econômica, turbulências políticas, racionamento e Petrobras estão saindo de cena.
Sem o medo da ruptura de curto prazo, as atenções se voltam agora para as condições de crescimento, em particular, a intensidade da desaceleração esperada para o ano e quando o País poderá sair da recessão.
Em relação à intensidade da recessão, os primeiros sinais de atividade não parecem tão ruins quanto o imaginado há alguns meses. Maior clareza poderemos ter ao final de maio, quando o PIB do primeiro trimestre será divulgado e as expectativas para o ano podem ser melhor alinhadas.
Paralelamente, as discussões sobre como reanimar a economia ganham corpo. No momento, o máximo que se pode fazer é construir uma narrativa de retomada, uma espécie de roteiro sobre como as coisas podem acontecer. Mas como ainda há pouca informação, este roteiro terá que ser avaliado a cada passo.
Uma primeira ideia deste roteiro é o resgate da confiança. Diferentemente do padrão, a confiança neste momento ganhou relevância por ter sido uma das causas da surpreendente desaceleração de 2014. Com uma gestão macroeconômica responsável, é possível fazer a inflação recuar e resgatar referências para o futuro, preservando o selo de grau de investimento e mantendo a atratividade do País a empresários e investidores. Estabilidade de regras e previsibilidade econômica são sempre importantes e, neste momento, são cruciais.
Ainda que haja muitos desafios pela frente, os primeiros passos parecem estar no caminho certo. O governo procura contribuir para atenuar a profunda e longa crise de confiança ao retirar as distorções geradas nos anos recentes e indicar maior comprometimento com metas, trajetórias e regras do jogo.
Como resultado, o sentimento de empresários e executivos começa a melhorar e cresce o interesse por fusões, compras e consolidações. Embora este movimento não implique necessariamente em aumento de investimentos, é um bom termômetro sobre o futuro. Da mesma forma, o ajuste econômico em curso resgata a confiança em uma economia estável e permite a queda dos juros de longo prazo, estimulando investimentos.
Mas há outros marcos ao longo da caminhada. Além da confiança, a desvalorização cambial desestimula as importações no curto prazo, permitindo às empresas nacionais reconquistar mercados, e estimula as exportações no médio prazo. Controlando pelo diferencial de inflação de nossos principais parceiros comerciais, o câmbio já mostra importante correção.
Da mesma forma, a retração econômica tem como contrapartida a redução de custos de produção, como logística e mão de obra. Com ganhos de competitividade, o ajuste liderado pelo setor externo pode manter ativos diversos setores, do agronegócio à indústria, resgatando a atratividade do País e estimulando investimentos. O mercado consumidor deve ser um dos últimos a recuperar, dadas as restrições de crédito e renda.
A chave para a retomada, portanto, está na confiança e no setor externo. Lentamente, o País pode voltar para um patamar de crescimento próximo a 2,5% ao longo dos próximos anos.
Pode parecer pouco em relação ao que vivemos no período de 2004 a 2010, quando a economia crescia a um ritmo próximo a 4,5%. Mas tirar os riscos de curto prazo é importante para abrir espaço na agenda para temas mais relevantes, como qualificação de mão de obra, sistema tributário e ambiente de negócios.
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