Diretor de Política Econômica do Banco Central, Luiz Awazu, indicou que o BC está se preparando para enfrentar os efeitos da alta dos juros americanos no câmbio. Se ocorrer ainda este ano, isso dificultará ainda mais a tarefa de baixar a inflação
Fabio Graner
O processo de alta dos juros nos Estados Unidos, previsto pelo mercado para ter início nos próximos meses, é alvo de especial atenção pelo Banco Central do Brasil.
A subida da taxa básica americana, que está ao redor de zero desde 2009, pode levar a uma nova rodada de desvalorização do real. Neste ano, o dólar já bateu os R$ 3 e tem rodado em torno de R$ 3,10 nos últimos dois meses. Se o câmbio tiver uma desvalorização muito forte por conta dos EUA, o BC brasileiro terá uma dificuldade adicional no seu esforço de controlar a inflação e colocá-la em 4,5% em 2016, promessa repetida à exaustão pelo colegiado presidido por Alexandre Tombini.
Na entrevista concedida para comentar o relatório trimestral de inflação, na quarta-feira (24), o diretor de Política Econômica do BC, Luiz Awazu Pereira, demonstrou que a autoridade monetária está bem de olho nos próximos passos de seus pares americanos. Segundo ele, é importante que o ajuste macroeconômico seja executado, de modo a fortalecer os fundamentos da economia e deixá-la pronta para enfrentar o momento em que o juro americano iniciar sua decolagem.
“Não podemos minimizar. A normalização (da política monetária americana) é complexa. Este é o evento mais esperado, bem anunciado e bem preparado da história da política monetária mundial. Nós temos que nos preparar”, afirmou Awazu. “Toda cautela é pouca”, completou o diretor, destacando que o Brasil tem feito seu trabalho de ajuste e que as percepções sobre o país estão evoluindo positivamente.
A alta dos juros americanos é um evento importante porque os títulos daquele país são considerados os papéis livres de risco, o porto seguro do mercado financeiro mundial. Assim, quando a rentabilidade daqueles títulos aumenta, é natural que haja um movimento de capitais para terras americanas. E esse movimento gera impactos nas moedas dos países, inclusive do Brasil.
Essa situação já foi possível de ser percebida algumas vezes nos últimos dois anos. A primeira grande revoada ocorreu quando o BC dos EUA sinalizou que iria acabar com a injeção de dinheiro na economia. Depois, outros momentos de volatilidade ocorreram quando o programa efetivamente se encerrou e com as sinalizações sobre o início do processo de alta dos juros. Atualmente, o mercado trabalha com um cenário mais provável de alta dos “Fed Funds” em setembro. Ou seja, uma surpresa em julho pode adicionar confusão no mercado e alta mais acentuada do dólar ante o real e outras moedas.
Uma nova rodada de desvalorização do câmbio pode acelerar o processo de retomada das exportações e redução do déficit externo, bem como reduzir o processo recessivo da economia brasileira. Por outro lado, alimenta a inflação e pode exigir mais juros no Brasil ou pelo menos mais tempo de aperto monetário no país, de modo a garantir o objetivo de 4,5%.
Segundo análise do próprio BC, em boxe no relatório de inflação, uma desvalorização do real tem efeito mais forte na alta de preços no período de três a cinco trimestres (quando atinge o pico do impacto) depois do evento. Ou seja, se o Fed gerar uma nova disparada do dólar entre agosto e setembro, o BC brasileiro teria que lidar com seus impactos durante todo o ano que vem.
Nesse sentido, o diretor Luiz Awazu reiterou que a política monetária reiterou que o BC vai seguir vigilante e trabalhar para conter o processo de contaminação da alta do dólar para os demais preços da economia (que no economês ele chamou de “efeitos de segunda ordem”).
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