Com o plebiscito, a crise deixa de ser econômica e financeira. Coloca a Europa sob pressão para avaliar os custos e benefícios políticos de se manter a Grécia na união monetária
Roberto Padovani
São Paulo – O final de semana trouxe mais um importante capítulo da crise grega. A novidade agora é que, mais do que um problema econômico e financeiro, o impasse passou a ser fundamentalmente político.
Os problemas recentes da Grécia começaram quando o país entrou na Zona do Euro e abriu mão de dois importantes instrumentos: a taxa de juros e a moeda. Em um primeiro momento, isso foi ótima notícia. Com juros, moeda e risco iguais aos da Alemanha, a Grécia experimentou forte expansão.
Enquanto nos anos 1980 e 1990 o crescimento grego era instável e oscilava ao redor de 1%, a entrada na união monetária permitiu um crescimento maior e mais estável, na casa dos 4%. Mas sem um controle fiscal apropriado, único instrumento na mão do governo para equilibrar a economia, houve um substancial aumento das importações de bens e serviços, elevando o deficit em conta corrente e a dívida externa.
De um desequilíbrio econômico, a questão tornou-se financeira. Diferentemente de outras economias europeias, a dívida bruta grega já mostrava tendência de alta e se encontrava em patamar elevado, próximo a 100% do PIB, muito antes da crise de 2008. Com a crise, os mercados financeiros rapidamente perceberam que o risco grego era diferente do risco alemão, e os juros cobrados para financiar a dívida grega dispararam. Com menos crescimento e mais juros, a dívida explodiu e alcançou o patamar próximo a 180% do PIB. Desde 2010, os investidores se perguntam se o país tem capacidade e vontade de pagar a dívida.
O resultado é que ao se arrastar o problema da dívida, os custos sociais do ajuste cresceram e levaram a um discurso político de confronto. A crise, inicialmente econômica e depois financeira, transformou-se em um problema fundamentalmente político. Espremido entre as realidades financeira e política, o governo criou um fato novo ao permitir a população se colocar contra a austeridade. O que fazer agora? Sem um plano B, as escolhas são difíceis e arriscadas para todos.
Do lado europeu, o risco parece ser relativamente menor. A Grécia está cada vez mais isolada financeiramente, dependente de organismos multilaterais e governos europeus. Por isso, possui menor capacidade de gerar uma ampla crise de confiança e institucional na região. Da mesma forma, o poder de barganha do país tem se reduzido, ao mesmo tempo em que vai ficando cada vez mais claro que a União Europeia é um projeto político sólido, cujo objetivo é superar uma tendência milenar de violência e instabilidade institucional por meio da integração econômica e financeira.
Do lado grego, a situação é complexa. Ao se manifestar contra a austeridade, a população aumenta as dúvidas sobre como coordenar o inevitável ajuste da economia. Ficar na Zona do Euro permite ao país usufruir da credibilidade institucional da Europa e, com isso, atrair recursos que atenuam a recessão. A desvantagem óbvia é a necessidade de entregar reformas politicamente difíceis, como a tributária, a da previdência e a abertura da economia, reduzindo o tamanho do Estado e elevando a produtividade.
Sair do euro não parece uma opção interessante. O país enfrentará uma crise aberta e profunda de crédito e de confiança, levando ao aumento do desemprego e da inflação. A reação das exportações com um câmbio desvalorizado tampouco é uma alternativa, dada a estrutura da economia grega. Serão muitos anos de reformas e reconstrução da reputação institucional até que a economia possa voltar a crescer com uma moeda estável.
O tempo corre contra a Grécia, e o consenso técnico indica que uma saída natural seria reestruturar a dívida e adotar reformas que modernizem e tornem a economia mais competitiva. Mas a questão deixou de ser técnica e passou a envolver estratégias políticas de longo prazo.
O plebiscito jogou a decisão para a Europa e criou uma situação nova, mais próxima da ruptura. Pela primeira vez, será preciso avaliar se os custos de um acordo político para manter a Grécia superam o benefício de se avançar na governança da região ao criar regras de saída institucionalmente definidas.
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