Além do ritmo de trabalho, o clima anda azedo nos gabinetes do Ministério da Fazenda, refletindo a tensão do ministro Joaquim Levy. Além das demissões e disputas internas de poder, a irritação pessoal do ministro aumentou, segundo assessores
Sheila D'Amorim
Definitivamente, o clima dentro do Ministério da Fazenda está longe da tranquilidade que o ministro Joaquim Levy tenta transparecer. O ministro está, cada dia mais, isolando-se no quinto andar do Edifício-Sede, em Brasília, onde fica o gabinete.
E não é só o ritmo alucinado de trabalho (despachos até as três horas da madrugada são praticamente rotina desde que ele assumiu). O clima tenso vem da tensão do próprio Levy. Segundo comentário de um interlocutor próximo, é como se ele estivesse sofrendo “da síndrome de Dilma”. Isso porque, quando assumiu, em janeiro, o ministro mostrava-se uma pessoa cordial, que parecia medir cada palavra ao se comunicar com a equipe e bem mais aberto a ouvir as opiniões.
Agora, o tom subiu e o humor azedou. Recentemente, uma reunião com seus secretários acabou sem desfecho depois que o ministro se irritou ao ler declarações do colega Nelson Barbosa, do Planejamento, em destaque nas agências de notícias.
Além das exonerações de auxiliares contratados com gratificações especiais (DAS, no jargão do funcionalismo público) para acomodar a reformulação em andamento no Carf (o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, que está no centro do escândalo de corrupção investigado na Operação Zelotes), o entra e sai na equipe de Levy não para.
O ministro despachou todas as secretárias do seu gabinete (que foram herdadas do antecessor), além de auxiliares de cerimonial. Somente a chefia de gabinete já está no quarto titular. A assessoria de imprensa teve quase dez baixas desde o início do ano. Sem falar nas demissões no Tesouro Nacional, que não pouparam nem estagiários.
A PGFN (Procuradoria Geral da Fazenda) também teve troca de comando. E, em meio ao debate sobre reajuste de carreiras do Judiciário e do clima nada amigável, o ministro enfrentou renúncia geral de assessores do órgão, que colocaram os cargos à disposição. Acabaram ficando para um período de transição, já que profissionais convidados para ocupar uma função na PGFN recuaram. Adriana Queiroz, que comandou a procuradoria até agora, deverá assumir um cargo especial de assessoramento de Levy. Sem dúvida, é um ministério “cheio de emoções diárias”, brinca um técnico.
Além das substituições, que até poderiam ser creditadas apenas ao fato de ser um ministro novo, mais recentemente, chamam atenção de quem circula pela Fazenda as desavenças entre Levy e seu secretário-executivo, Tarcísio Godoy. Homem de confiança do ministro, os dois foram colegas no Tesouro Nacional e trabalharam no Bradesco. Segundo relato de pessoas próximas aos dois, um dos focos de atrito seria o secretário-executivo adjunto, Fabrício Dantas Leite, outro homem de confiança do ministro, que não esconde dos colegas sua insubordinação a Tarcísio.
Some-se a tudo isso o perfil centralizador de Levy e os inimigos dentro do governo, que ele acumula com sua política de ajuste fiscal, e está montada uma barreira que faz com que o ministro fique cada dia mais isolado.
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